Marcelo Mimoso: Um “parioca” nascido no sertãozinho da Gávea

Marcelo Mimoso Marcus Lucenna

Marcelo Mimoso

Ele nasceu no Hospital Miguel Couto, na Gávea, e foi criado na Barra da Tijuca. Mas apesar da sua carteira de identidade registrar o Rio de Janeiro como cidade natal, Marcelo Mimoso não se considera um carioca. “Eu sou ‘parioca'”, brinca o músico, de 37 anos, um dos grandes nomes da cena forrozeira contemporânea que assina participação especial no 15º álbum de Marcus Lucenna.

Parioca, explica Marcelo Mimoso, é a mistura de paraibano com carioca, pois sua família é toda oriunda do município de Remígio, que fica a 140 quilômetros da capital João Pessoa. Ele conta que criou o gentílico depois de tantas perguntas sobre sua naturalidade. Saiu-se com o neologismo para resumir uma história de vida que mistura, afetivamente, os ares da Cidade Maravilhosa com os do Semiárido paraibano.

Sua voz carrega um acento nordestino, provavelmente pela convivência desde pequeno com grandes nomes do forró, a começar pelo pai, Fidélis do Acordeon. O menino Marcelo costumava acompanhá-lo pelos forrós Brasil a fora carregando sua sanfona. Também teve relação próxima com o folclórico Manhoso, famoso nacionalmente por suas canções de duplo sentindo. Além de padrinho de Mimoso, Manhoso teve suas canções embaladas por Fidelis por mais de 15 anos.

Ainda que o DNA insistisse que não, Marcelo Mimoso quase enveredou por outros rumos musicais. Nos anos 90, curtia funk, axé, lambada, tudo aquilo que estava fazendo a cabeça da rapaziada da sua geração. Forró era considerado coisa de coroa pela garotada. No entanto, um convite do pai, em 2000, fez o jovem encontrar o caminho que lhe faria brilhar no futuro:

“Vamos lá num forró onde eu vou tocar, tem gente da sua idade. É lá no Costa Brava, no Joá”, convidou o acordeonista. O filho aceitou. “Eu fui e, de lá pra cá, me encantei com a juventude ‘comendo’ forró”, recorda Mimoso, ainda que estranhando um pouco a forma como o público dançava. Era diferente do que conhecia na Feira de São Cristóvão, onde ia desde menino. “Era aquela dança um pouco diferente, eu chamo como ‘forró dos pula-pula’, porque o forró que eu conhecia desde criança, lá da feira, é o rala-coxa mesmo, dois pra lá, dois pra cá”, ri o artista, comparando o forró tradicional com a onda forrozeira da virada do milênio capitaneada pelo grupo Falamansa.

A ASCENSÃO NO FORRÓ 

Depois de contagiado, Marcelo Mimoso não se curou mais da febre forrozeira. De roadie do Trio Pé-de-Serra, passou a trianglista do Balanço Bom e a líder dOs Cabras. Depois de adquirir experiência, acabou chamado novamente ao Balanço Bom para liderar a banda. Foi quando mergulhou na obra de Dominguinhos, por influência do sanfoneiro Cezinha. Atuando na banda Forró do Mercado, com o acordeonista Kiko Horta, abriu o leque musical, até então circunscrito ao mundo dos trios. Foi então que recebeu o convite do diretor teatral João Falcão para assumir um papel de ainda mais responsabilidade: o de Luiz Gonzaga no teatro, no musical “Gonzagão – a Lenda”, com o qual percorreu o Brasil por quatro anos, chegando a Bogotá, na Colômbia, onde apresentou cinco sessões.

CORAÇÃO NORDESTINO

Marcelo Mimoso afirma que essas viagens lhe encheram de orgulho, por estar representando a terra do seu pai, mesmo sendo carioca. “Era como se eu fosse de lá. Inclusive, dei à minha primeira música, um baião, o nome de “Coração Nordestino”, porque sinto que tenho o coração nordestino. Fiz a música em parceria com Marcelo Caldi, um grande maestro, acordeonista e pianista. Eu queria falar alguma coisa sobre a invasão do sertanejo nas grandes grades do forró do São João do Nordeste. Aí saiu essa música”, recorda o artista, salientando que nessa época viajou muito ao nordeste fazendo shows, e o público passou a cada vez mais associá-lo à região. “Foi aí que comecei a falar que eu sou do sertãozinho da Gávea”, diverte-se.

HINO DA FEIRA

Nascido na Gávea e criado na Barra da Tijuca, Marcelo Mimoso tem o privilégio de viver na cidade onde está localizado um dos maiores redutos nordestinos fora do Nordeste: a Feira de São Cristóvão. Sua identificação com o local é grande, e esse foi um dos motivos pelo qual aceitou o convite de Marcus Lucenna para participar da regravação de “Hino da Feira de São Cristóvão (Vida Retirêra)”, um dos hits do álbum “Marcus Lucenna na Corte do Rei Luiz”, lançado ano passado.

“Foi muito bacana participar da gravação. Essa relação com esse templo da cultura nordestina na minha cidade é grandiosa, porque significa viver o Nordeste no Sudeste. Se você parar para analisar, no próprio Nordeste, infelizmente, o forró de raiz não é valorizado como deveria ser, por causa dos grandes empresários e seus forrós de plástico. O nordestino levantou o Brasil, com as grandes obras em Brasília, Rio e São Paulo. Nada mais justo que a gente, aqui no Sudeste, levar essa cultura em frente”, afirma Marcelo Mimoso.

PARCERIA COM MARCUS LUCENNA

Marcus Lucenna e Marcelo Mimoso no Trem do Forró

Marcus Lucenna e Marcelo Mimoso no Trem do Forró

Participar da gravação da música de Marcus Lucenna foi uma honra, diz o cantor, já que homenageia os retirantes que contribuíram para o desenvolvimento econômico e cultural do Sudeste e também porque foi composta por um artista potiguar reverenciado por Mimoso.

“Marcus Lucenna, além de ser uma referência, assim como Gonzaga, Dominguinhos e Jackson do Pandeiro, é uma pessoa muito generosa, que valoriza a galera que está chegando agora. Pouca gente é assim. Ele me chamou para participar do seu disco e, para mim, poder colocar a minha voz no Hino da Feira, foi maravilhoso”, resume o artista, que, seja nos palcos, seja nos estúdios, segue firme na tarefa de valorizar a cultura nordestina e levá-la ao lugar que merece estar no cenário musical brasileiro.